Deitada no sofá do consultório, sem saber muito bem o que me levava àquele 5º andar, deixei escorregar alguns lamentos que justificassem a afronta dos honorários.
Queixei-me da vida, das prestações da casa, do carro, dos colegas de escritório, do trabalho, das imprecações do chefe, do tempo, da falta dele, das rotinas, das solidões, das noites mal dormidas, dos silêncios atormentados, das dores das incompreensões, das censuras injustificadas, dos insultos contundentes, dos reparos incautos e levianos.
- Precisa de férias, aconselhou o dr. Torres com um arqueamento de sobrancelhas que concedia uma certeza científica a um mero acto de bom senso! Vá para longe. Escolha um destino onde se fale indiano, crioulo, chinês, esperanto! Fique por lá uns tempos, aprenda a língua dos nativos. Esqueça o seu nome, a sua morada, os seus hábitos, os seus amigos. Conte outra história, rasgue a sua certidão de nascimento, queime o seu assento de baptismo. Vai ver que vai melhorar dos tremores, das sezões!
Pareceu-me sábio, convincente, o parecer médico.
Paguei a consulta e galguei os 5 andares numa determinação profunda.
A partir daquele dia apagaria para sempre a minha identidade.
De V. Ex.ª atentamente se despede,
Maria Amanuense.
Para sempre!
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